VENHA JOGAR BUZIOS

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Ações futuras para o povo do axé

Da idéia do babalorixá Sivanilton (Pecê) do Ilê Axé Oxumarê, acolhida pelo Coletivo de Entidade Negras (CEN), surgiu em novembro de 2005 a Caminhada pela Vida e Liberdade Religiosa. Foram anos de muita fé e luta para montar uma atividade política do povo de axé que não ganhasse o caráter lúdico. Todo este esforço foi recompensado este ano com dois gestos significativos e que demonstram amor e respeito de todo o povo do candomblé.

De um lado o CEN despe-se de vaidades e monta a Comissão pela Vida e Liberdade Religiosa, abrindo mão do controle da caminhada para todas as entidades nacionais que tratam da cultura religiosa afro-brasileira. Ao seu tempo, estas entidades reconhecem a importância da atividade para o povo de axé e a consolidam em âmbito nacional a partir de 2009.

Também foi criado um documento que entra para os anais das religiões de matrizes africanas intitulado Carta de Salvador e que é composto de quatro parágrafos, os iniciais copiados abaixo:

"Nós, sacerdotisas, sacerdotes, vivenciadores e simpatizantes da tradição de matriz africana, reunidos nesta cidade entre os dias 20, 21, 22 e 23 de novembro de 2008, para participar da IV Caminhada pela Vida e Liberdade Religiosa e do Seminário Liberdade Religiosa - uma Questão de Direitos Humanos, sobre as bênçãos de Olorum, Nzambi, Mawu Lisa, Deus, vimos de público afirmar que:

Devido à importância político-social que hoje representa a Caminhada pela Vida e Liberdade Religiosa e sua confluência na proposição organizativa das comunidades tradicionais de Norte a Sul, Leste a Oeste do País, decidimos por maioria torná-la oficialmente a Caminhada Nacional pela Vida e Liberdade Religiosa, podendo a mesma abrigar todos os segmentos da tradição de matriz africana no território nacional, passando sua organização para o coletivo de entidades signatárias desta carta."

O documento pontua uma agenda nacional para as religiões de matrizes africanas durante o biênio de 2009/10:

"Devido à importância político-social do recenseamento a ser realizado em território nacional pelo IBGE em 2010 e ao fato de nunca ter sido dada a devida importância ao segmento afro-brasileiro, buscando de fato o estabelecimento do perfil qualitativo e quantitativo da nossa população, definimos pela realização de uma campanha de ação afirmativa nacional protagonizada pelas entidades negras representativas da tradição de matriz africana, em parceria com as demais entidades do movimento social negro, elaborada e criada a partir da realidade vivenciada nas comunidades de tradição. Para esta campanha buscar-se-ão as necessárias parcerias com os órgãos governamentais em todas as instâncias.

As organizações signatárias desta carta aberta têm em comum a luta contra toda e qualquer forma de discriminação, de intolerância religiosa e pressuposto do reconhecimento da humanidade do outro e de seus direitos civis e sociais; estando as mesmas unidas pelo mesmo objetivo em todo o território nacional, exigindo do Estado o cumprimento do seu papel, em relação aos seus direitos."

A Carta de Salvador foi assinada pelo CEN, Nafro, Cetrab, Intecab, Monabantu, Fenacab, Cenarab, AFA, Cedrab, Ciafro, Abam, Acoma, Rede Religiões Afro-Brasileiras e Saúde e por mais de 400 autoridades religiosas de terreiros de candomblé de mais de 10 estados do Brasil que participaram do encontro. Ela é fruto da unidade interna.

A Carta surge no momento em que a intolerância religiosa ronda a sociedade brasileira e os terreiros e que a busca de afirmação dos religiosos de matrizes africanas torna-se nítida através de uma série de parcerias com o Estado. Notamos que o axé, o nguzu, a força vital necessitam jorrar em abundância e compreendemos o momento que vivemos.

Os terreiros são os maiores centros irradiadores dos anseios políticos do povo negro em sua essência mais ancestre. São o ponto focal da resistência com suas raízes fortes e vibrantes de onde brotaram os elementos mais significativos das tradições africanas e sua diversidade no Brasil. Agora, continuamos a pedir bênçãos aos ancestrais e às divindades, arregaçar as mangas e trabalhar, pois este é apenas o começo. Que os orixás, inquisses, voduns e encantados para sempre sejam louvados.

FONTE: A TARDE: On Line.

domingo, 18 de janeiro de 2009

OBRIGAÇÕES

Um ano após a feitura, o nascimento no santo , o Yaô deve fazer sua primeira obrigação que tem por significado comemorar esse nascimento e o reforço de seus votos e fidelidade com o Orisá.
São oferecidos um bori e um animal de duas patas.
Os votos serão renovados ao se completar três (03) anos de iniciado. Serão oferecidos um bori e um animal de quatro patas que seja do fundamento do orisá do yaô que está tomando a obrigação.
Aos sete (07) anos de feitura o yaô alcançará a maior idade no santo tornando-se Ebomi (irmão mais velho)e a partir desse momento estará pronto para assumir as funções sacerdotais ,ou seja, tornar-se dono de sua própria casa de Santo. Ele já pode assumir o posto de Babalorixá.
Deká ou obrigação de sete anos, é como se intitula este ritual de passagem.
As obrigações dentro do candomblé, não podem ser adiantas, ou seja, dadas antes do prazo existe a necessidade de ser respeitado o tempo para que sejam realizadas.
Somente a iniciação não assegura que o Yaô, receba o cargo de Ebomi ,ele precisa cumprir todas as etapas descrita anteriormente e mesmo tendo mais de sete (7) anos de iniciado,é necessário que passe por todos os rituais de passagem seguindo a ordem cronológica para deixar de ser um YAÔ e se tornar um Sacerdote.
O Ebomi recebe durante a cerimônia, elementos de fundamental utilidade para que exerça a função sacerdotal, entre estes elementos : Os Búzios e a navalha são importantíssimos para da a ele o direito e assim a obrigação Deká seja completa. Além dos elementos ele passa a ser detentor do fio de grau : RUNGEBE.
Outras duas obrigações são necessárias a este novo Ebomi. As de 14 anos e de 21 anos de santo.

Obrigação de Sete Anos.

A Maioridade dentro do candomblé é atingida quando o adoxu completa os sete anos de iniciado. O Ritual de passagem que se processa é chamado de “OBRIGAÇÃO DE SETE ANOS”( Oyé ou deká). Nesse ritual o adoxu deixa de ser yaô e passa a ser um Ebomi, que quer dizer irmão mais velho, e recebe o seu cargo (OYÉ): seja de sacerdote ,seja de autoridade na comunidade que faz parte.
Um filho de santo quando reconhecido pela comunidade do candomblé como um membro importante pode ser emancipado e assumir essas funções antes de completar sete anos, mas a obrigação não pode ser adiantada. Lembrando sempre que ninguém pode dar o que não tem.
Na obrigação de sete anos, o adoxu recebe uma série de elementos imprescindíveis às funções de um sacerdote,como os búzios, a navalha,as sementes e frutos sagrados os pós de efun,ossun,iorossun, waji,ilu,etc. Tudo é entregue em uma peneira e é o conjunto desses objetos rituais que constitui o DEKÀ.
Quando se trata de um novo Babalorixá , o ideal é que ele receba o Deká em seu próprio terreiro,no dia da inauguração. Então o novo ebomi é apresentado à todos (Egbé) para que se cante o oyé. Todos aqueles que já têm oyé (ijoyé) são convidados a dançar em frente ao novo sacerdote,reverenciando e desejando boa sorte no sacerdócio. Os mais novos são convidados a tomar a benção do “irmão mais velho”.
Completar simplesmente os sete anos de iniciação não assegura a um yaô passar à categoria de ebomi. É necessário que se cumpra todas as obrigações e adquira todos os conhecimentos necessários para se alcançar esse posto.Dessa forma uma pessoa com trinta anos de santo não lhe é assegurada ,mesmo com tanto tempo que foi iniciada, o posto de ebomi e sim ainda é um yaô até o dia que tomar a obrigação de sete (07 ) anos.
Na obrigação de sete anos, o adoxu receberá um fio de contas chamado Rungebe, uma tradição incorporada aos ritos da nação Jeje, grande símbolo de senioridade, o chamado fio de grau. É o único colar que só os ebomis podem usar.
Após essa obrigação de sete anos, é de costume comemorar outras duas: a de 14 e 21 anos de santo.
Mas as obrigações de fato imprescindíveis depois da feitura, são as obrigações de um ano, três anos e sete anos que são sempre comemoradas com grandes Festas.

FIOS DE TEMPO

POR: Guilherme Augusto Rezende Lemos

O Candomblé é uma religião iniciática de caráter progressivo. Sua organização se estabelece a partir de um conceito peculiar de hierarquia onde o que está “acima” não tem, necessariamente, poder sobre o que está “abaixo”, mas vai adquirindo, com o tempo e as “obrigações”, o direito de participar e “ver” aspectos mais profundos do cotidiano religioso obtendo, com isso, mais conhecimento. A ascensão hierárquica se faz pela associação indissolúvel de tempo e conhecimento; tempo sem conhecimento ou conhecimento sem tempo constiuem-se como caminhos desviantes que tornam o indivíduo inadequado à convivência coletiva. Em síntese, a hierarquia no candomblé se estabelece no sentido dos que “sabem” (no tempo) para os que “não sabem” (por terem pouco tempo).
No candomblé o saber sempre se realiza no real, quem sabe, não sabe para si nem por si, sabe a partir da necessidade e para fins. O saber é ao mesmo tempo o segredo, a necessidade e a capacidade de materializar o conhecimento, transmutando mitos em ritos, práticas e objetos. Quanto mais conhecimento tanto mais ritos, práticas e objetos.
Um caminho interessante para se constatar isso é observância sobre o fio de conta que, mais que um adorno, é uma marca e uma fonte de axé. O simples colar ao imergir na devida mistura de folhas quinadas, associada a alguns outros materiais transforma-se numa identificação que remete o indivíduo ao seu lugar na comunidade.
A cerimônia da lavagem das contas é, por assim dizer, a inserção do neófito no universo mítico e místico do candomblé. Ao receber seus primeiros fios de conta, geralmente um fio de Oxalá e outro de seu orixá pessoal, o então abiã se apercebe da importância de Oxalá no conjunto dos orixás. Oxalá é o deus do branco, o pai dos orixás, ou seja, uma energia geradora que antecede, no tempo, os demais orixás. Oxalá pró-cria, abranda, esfria e descansa. Os primeiros conhecimentos acerca deste orixá circunscrevem-se na própria simbologia do branco que, sendo o somatório de todas as cores, traz em si todas as possibilidades de cor. É a energia de onde tudo sai e para onde tudo retorna, por isso o branco é tanto a cor que festeja o nascimento como a que marca o momento da morte. O luto no candomblé é branco, pois representa o retorno do indivíduo à massa informe da ancestralidade. Por isso, necessariamente, o primeiro fio que se recebe é o branco de Oxalá, simbolizando o estado de latência que caracteriza o abiã como um candidato à iniciação. O branco de Oxalá dialetiza o justo descanso com o movimento gerúndio.
No período da iniciação, o iaô, além de fazer jus a uma pequena coleção com os inhãs dos orixás que participam de sua configuração espiritual, recebe algumas contas específicas que o identificam como tal, são elas o mocam, o quelê e os deloguns, nesta ocasião os fios irão “comer” junto com o “santo”, isto é, configurar-se-ão como verdadeiros campos de força.
Após a obrigação de três anos, é comum ao ainda iaô, já com alguma graduação, ser presenteado com alguma conta mais “enfeitada” adquirindo, com isto, o direito de criar para si colares mais rebuscados com missangas um pouco maiores e até alguns poucos corais, primando ainda pela discrição.
Por ocasião da obrigação de sete anos, o agora ebomi, adquire adornos que o identificam como tal: o runjebe, o lagdbá, o brajá, o âbar, o monjoló, os corais, as contas africanas multicolorias e o alabastro. Mais que isto, ganha a liberdade total de criar seus próprios fios, seja no tamanho das contas, na riqueza dos detalhes ou dos próprios materiais a utilizar (ouro, prata, etc.). O ebomi já conhece os seus “fundamentos”, por isto a liberdade.
Entretanto, não termina aí o aprendizado. Até os sete anos, o iaô, é tutelado e educado por seus iniciadores, a partir daí é tutelado pela própria liberdade. Muito embora, parafraseando José Flávio Pessoa de Barros, “a modéstia não seja bem vinda no candomblé”, o bom tom e a justa medida são apreciadíssimos. O ebomi deve ser um exemplo para o iaô, principalmente no que tange ao manuseio de sua própria liberdade e a adequação às situações, dentro e fora da comunidade. A confecção e utilização dos fios de conta deve ser sempre um exercício da criatividade, mas também deve responder à uma estética própria do candomblé que preserva através de seus objetos a sua própria história; inovações excessivas ferem a justa medida e tornam-se inadequadas, posto que os objetos são importantes instrumentos de apoio à manutenção da tradição oral.


Ibá re ô, Egbon mi.(MEUS RESPEITOS AOS MAIS VELHOS)

A finalidade deste texto é orientar as pessoas que não conhecem o candomblé.

Porque se iniciar ou não no candomblé...

A iniciação:


Com a globalização que aí está e a Internet, vai ser muito dificil esconder segredos guardados a sete chaves como vinha sendo feito há uma centena de anos pelos antigos do candomblé.

A finalidade de se guardar esses segredos era justamente para que não caíssem em mãos erradas e fossem usados para fins inescrupulosos, como já está acontecendo.

O candomblé é uma religião iniciática mas nem todos nasceram para ser sacerdotes, gostaria de salientar que essa iniciação só deve ser feita em última instância, só em caso de extrema necessidade, quando não tiver outra alternativa.


A iniciação no candomblé não é uma coisa que se faça levianamente sem observar as consequências provenientes de erros, caso o pai ou mãe de santo não estejam preparados devidamente para isto.


Por que iniciar uma pessoa que não precisa ser iniciada? Só pelo dinheiro? Tem muita gente fazendo isso sem nenhum escrúpulo. São os mercenários de nossa religião que não tem o menor respeito pelo Orixá que dirá pelas pessoas desavisadas que caem em suas mãos.

Sempre que for fazer uma consulta em qualquer casa de candomblé, fique atento, não dê dinheiro algum sem antes confirmar em outros lugares se é isso mesmo que estão dizendo. Se disserem que tem que fazer um ebó, borí, ou iniciação, vá jogar em outros lugares para confirmar a resposta do jogo, se for igual em pelo menos tres lugares diferentes então faça. Caso contrário não faça nada, não gaste seu dinheiro sem saber se é realmente necessário.

Muitas pessoas pensam que é só fazer o santo e já pode ser pai ou mãe de santo, a coisa não é bem assim...
Não é porque a pessoa se iniciou, que obrigatoriamente terá que abrir casa ao completar sua iniciação na obrigação de sete anos.
Não são todos filhos de santo que tem cargo para ser um sacerdote. O sacerdote já nasce com essa missão e em proporção seria 1 em cada 1000 que deveria se preparar para essa árdua tarefa.

O que está acontecendo no candomblé é uma distorção grave, quando se pensa que todo iaô tem que abrir casa. Um absurdo.
Muitos não tem nem fibra e nem capacidade para ser um lider, abrem suas casas e depois de um tempo despacham tudo no rio e vão para as igrejas de crentes como se isso resolvesse o problema.

E os culpados disso são os pais e mães de santo que inventaram essa nova modalidade de ganhar dinheiro, pois cada iaô que o incompetente for tirar, terá que chamar o pai ou a mãe para raspar porque ele não sabe. Pois não conviveu o tempo suficiente na roça para aprender o mínimo necessário e já abriu uma casa.

Mesmo com pais ou mães de santo competentes, é preciso saber que candomblé não se resume às festas de barracão, a festa é só o final da cerimônia, não como muitos pensam que é só chegar na hora da festa para dançar, "candomblé não é só isso".


O candomblé propriamente dito começa uma semana antes de cada festa, com muita gente na casa lavando, passando, cozinhando, limpando e enfeitando, quando você entra no barracão e vê as bandeirinhas no teto da cor do Orixá que está sendo homenageado, alguém teve que comprar, cortar e colar as bandeirinhas e colocá-las no lugar para que o barracão fique bonito.

As anáguas, toalhas brancas, ojás precisam ser engomadas e passadas, (detalhe na maioria das roças é no tanque por não ter máquina de lavar, e se tiver não é usada porque gasta muita luz) isso normalmente é feito pelas ekedis ou pessoas que moram na casa de candomblé, mas e as suas anáguas quem vai engomar? Quem vai passar? É durante o período de abian que muita gente vai aprender a lavar suas roupas, engomar e passar para poder usar na festa.


Se você não sabe lavar roupa ou nunca lavou vai ter que aprender ou pagar para que alguém faça para você. Na maioria das vezes é do que vivem as pessoas que moram dentro de uma casa de candomblé, lavam e passam as roupas dos que não sabem ou não tem tempo para fazer.

Durante a semana diversas obrigações são feitas, de acordo com a determinação do jogo de búzios, Exús, Eguns e os Orixás homenageados. Os bichos tem que ser limpos por alguém e tratados pois será servido uma parte para os Orixás e outra parte para todos os presentes na festa. Você já limpou uma galinha, um pato, um pombo ou um cabrito?

Ah! tem dó?!!!, Tem nojo? ah bom!!! Então pode ir pensando no assunto, na hora de tirar as penas todo mundo tem que ajudar não importa cargo, é uma das coisas que os abians e iaôs podem fazer.

Alguém precisa limpar a casa e deixar impecável para que ninguém saia falando. Isso os abians e iaôs também podem fazer sem problemas, se você nunca varreu sua casa, vai aprender a varrer barracão e quintal que normalmente são enormes.

A comida precisa ser preparada e estar pronta antes de começar a festa para que as pessoas que estavam no fogão possam tomar banho e se arrumar para a dita festa.

Quando chegar num candomblé e notar algumas pessoas com cara de cansadas e cochilando em alguma cadeira, não repare essa pessoa deve estar com todos os ossos do corpo doendo de uma semana de trabalho duro para que você possa ver uma festa bonita.

Se você é leigo no assunto, procure conhecer um pouco mais antes de fazer qualquer coisa.

Não deve se iniciar só porque acha bonito, porque gosta das roupas, porque gosta do ritmo envolvente sem pensar nas responsabilidades e consequências da iniciação.

Não se inicia para depois de um ano chegar a conclusão que não era bem isso que se queria.

Quando você se inicia no candomblé você está criando um vínculo com o seu Orixá, com a casa, com o pai ou mãe de santo, você passa a fazer parte de uma comunidade, por isso deve escolher bem a casa.


Antes de qualquer coisa, acho que a pessoa precisa consultar vários jogos de búzios para saber se todas as respostas de jogo são iguais, não se deve confiar cegamente em ninguém.

Depois de consultar vários jogos já dá para saber se precisa realmente ser iniciado ou não, aí a pessoa precisa escolher a casa e o pai ou mãe de santo que mais lhe inspire confiança, procurar saber quem são seus ancestrais, em que casa ele foi feito, tudo isso para não ter surpresas e aborrecimentos no futuro. Estou dizendo isto porque existem muitas pessoas com casa aberta e nem são iniciados no candomblé e dizem que são. Estou falando de Candomblé !!!

Uma pessoa que não foi iniciada, não pode iniciar outras pessoas, porque não recebeu o Axé de ninguém. E pelo que me consta ninguém pode dar aquilo que não tem.

Mesmo que lhe digam que precisa ser iniciado (fazer o santo), tenha calma e não vá fazendo no primeiro lugar que lhe disseram, procure outros lugares, se informe, o santo não vai te matar se você não fizer imediatamente, se ele é seu Orixá ele quer o melhor para você.

Por isso mesmo existem os abians nas casas de candomblé, são pessoas que participam das festas e algumas obrigações na casa sem a responsabilidade de ser um iniciado.

Para fazer parte do candomblé não pode ser preguiçoso, se está pensando que vai chegar numa roça de candomblé e ficar encostado olhando os outros trabalharem, esqueça, todos trabalham por igual em pról da comunidade, se é uma casa prá todos os filhos, todos os filhos tem que ajudar. E não é ao pai ou mãe de santo que estão ajudando. Quando limpar a roça pense que alguém está fazendo a comida que você vai comer e o que você está fazendo se reverterá em benefício de todos e para que todos tenham um lugar agradável e limpo para ficar.


Durante o período de abian é que você aprende a dançar no barracão, aprende as cantigas, convive com todos da roça e tem a possibilidade de conhecer um por um, nesse período é que você vai descobrir se está no lugar certo, caso não seja poderá ir para outra casa pois ainda não tem vínculo nenhum com o pai ou mãe de santo e nem com a casa.

O Axé é transmitido do pai ou mãe de santo para o iniciado de diversas formas, uma delas é na iniciação através do Adoshu que é colocado na parte superior da cabeça, onde penetrará o Axé ali depositado.
O Axé vai sendo transmitido aos poucos, através das rezas, cantigas, banhos, boris, na feitura, na obrigação de 1 ano, 3 anos, (em algumas nações tem a de 5 anos), 7 anos, 14 anos, 21 anos de santo, daí em diante enquanto o pai ou mãe for vivo.

O certo é permanecer na casa onde se foi iniciado, mas em decorrência de muitos desentendimentos entre pais e filhos de santo tem havido uma constante mudança de casa.
Para os que não sabem...você nunca vai ser tratado em outras casas, como na casa onde você foi iniciado, existe uma diferença, ou seja (você não é do meu Axé), pode ser muito bem camuflado mas que esse sentimento existe, existe....
Na primeira discussão você pode ouvir isso, não digo do pai de santo, mas dos outros filhos da casa com certeza.

Depois da morte:

Quando um iniciado morre esse Axé depositado precisa ser retirado antes do enterro através de uma outra cerimônia e dependendo do tempo de iniciação a cerimônia do Axexê vária de 1 a 7 dias.

Então quando uma pessoa pretende se iniciar no candomblé, já deve estar ciente que sua família terá que arcar com as despesas da cerimônia do Axexê após sua morte, caso não tenha deixado dinheiro para esse fim.

São cerimônias caríssimas tanto a iniciação como o Axexê, lógico que as despesas terão que ser custeadas pelo iniciado ou por sua família. Se você não tem o dinheiro o Orixá sabe disso e não vai pedir aquilo que você não pode dar. Normalmente ele espera o tempo que for necessário, desde que ele veja que você está guardando nem que seja um centavo por mês.

O que acontece com mais frequência é a pessoa se iniciar (fazer o santo) sem saber desses detalhes e só depois de alguns anos de feito é que vai descobrir que quando morrer estará deixando um compromisso para a família que muitas vezes nem sabe do que se trata.

Quando o iniciado não fez a obrigação de 7 anos ou seja ainda é um iaô, na maioria das vezes nem é feito o axexê individual, só é feita a primeira cerimônia, isso se a família permitir que se faça.

E muitos, mesmo tendo obrigação de 7 anos a família que não faz parte do candomblé não permite que se faça as cerimônias necessárias.

Esse é um dos maiores problemas que os pais e mães de santo enfrentam quando morre algum filho de santo, ter que fazer as cerimônias e encontram obstáculos em virtude da família do filho de santo não conhecer a religião e não permitir e nem arcar com as despesas das mesmas.

Outro caso, esta semana recebi uma mensagem de uma pessoa que tendo um parente falecido há uma semana, e que era feito no santo. Ele não sabia o que fazer com os assentamentos que estavam em um quarto dos fundos da casa onde mora. Segundo a pessoa, já tinha ido procurar um pai de santo e este cobrou R$ 14.000,00 para ir despachar os assentamentos, o triste é que a família não tem nenhum dinheiro. E agora José?


A parte que se refere a casa de santo, o pais e mães de santo fazem, jogam os búzios e o que for determinado será feito com relação ao Orixá do filho de santo, será despachado ou ficará na casa.

Para os filhos de santo nessas situações são feitos axexês coletivos sem a ajuda da família, cumprindo a obrigação da casa reverenciando todos os que já morreram.

Quando o falecimento é de um pai ou mãe de santo é muito mais complicado.

Todos os filhos da casa se reúnem e chamam um outro pai ou mãe de santo mais velho que saiba fazer a cerimônia do axexê.

Logicamente esse pai ou mãe de santo cobrará por seus serviços. Normalmente os pais de santo já deixam um dinheiro reservado para essa finalidade. Caso não tenha deixado, as despesas com os materiais, bichos, bem como o serviço do pai ou mãe de santo contratado terão que ser pagos pelos filhos de santo da casa.

É uma cerimônia trabalhosa e cansativa que dura 7 dias e quem estiver no primeiro dia não poderá sair da roça até que termine tudo. E não termina por aí... tem o axexê de mês, de 3 meses, 6 meses, 1 ano e daí por diante....

Além disso, todos os filhos da casa terão que tirar a mão do pai de santo falecido, seja com a pessoa que herdar a casa ou com outro pai ou mãe de santo de sua escolha.

Por isso antes de pensar em fazer o santo, pense bem, mas pense mesmo em tudo o que escrevi acima.

Só se inicie no candomblé em caso de extrema necessidade, deixo bem claro que esta é a minha opinião.

Cada um deve saber onde amarrar seu burro, o ditado é velho mas ainda é válido.

AUTORA: Jurema D'Oxum

FONTE: http://br.geocities.com/jurema.geo/links/artigo3.html

Candomblé de Angola

Religião afro-brasileira, de origem banto, que compreende as nações de Angola e Congo (Cassanges, Kikongos, Kimbundo, Umbundo e Kiocos), e se desenvolveu entre os escravos africanos que falavam a linguagem Kimbundo e Kikongo e são facilmente reconhecidos pela maneira diferente de cantar, dançar e percutir seus tambores.

Na hierarquia de Angola o cargo de maior importância é para homem Tata Nkisi (tata de inquinces) e para mulher Mametu Nkisi (Mametu de inquices), que correspondem ao Babalorixá e a Yalorixá dos Yorubás, e o Deus supremo é Zambi (Nzambi) ou Zambiapongo (Ndala Karitanga).

O Candomblé de Caboclo é uma modalidade desta nação, e cultua os antepassados indígenas. Há uma nação que faz parte do Batuque do Rio Grande do Sul que descende de Angola, que é a Cabinda.

Os rituais da nação Angola começam com o Massangá, que é o batismo na cabeça do iniciado, feito com água doce e Obi; Bori com sacrifício de animais para o uso do sangue (menga); ritual de raspagem, conhecido como feitura de santo; ritual de obrigação de 1 ano; ritual de obrigação de 3 anos, onde muda o grau de iniciação; ritual de obrigação de 5 anos, com o uso de frutas, obrigação de 7 anos, quando o iniciado recebe seu cargo, é elevado ao grau de Tata Nkisi (zelador) ou Mametu Nkisi (zeladora). Após 7 anos de obrigações, será renovado a cada ano com o rito de Obi ou Bori, conforme o caso, e de 7 em 7 anos se repete as obrigações para conservar o individuo forte, se transformando em Kukala Ni Nguzu, que quer dizer um ser forte. Além dos búzios, outro sistema antigo de consulta é o Ngombo, no qual o adivinhador recebe o nome de Kambuna.

Os principais Nkisi são: Aluvaiá (também conhecido como: Nkuyu Nfinda, Tata Nfinda, Tona e Cubango), Bombo Njila(Bombojira), Vangira(feminino), Pambu Njila, Pambuguera; Nkisi Nkosi Mukumbe, Roxi Mukumbe, Burê; Nkisi Kabila, Mutalambô, Gongobila, Lambaranguange; Nkise Katendê; Nkisi Zaze (Nsasi, Mukiamamuilo, Kibuco, Kiassubangango) Loango; Nkisi Kaviungo ou Kavungo, Kafungê; Nkise Angorô e Angoroméa; Nkisi Kitembo ou Tempo; Nkisi Tere-Kompenso; Nkisi Matamba, Bamburussenda, Nunvurucemavula; Nikisi Kisimbi, Samba; Nkisi Kaitumbá, Mikaiá; Nkisi Zumbarandá; Nkise Wunge; Nkisi Lembá Dilê, Lembarenganga, jakatamba, Kassuté Lembá, Gangaiobanda; Nkisi Nwunji, Nkisi Kaitumbá, Mikaiá, Kukueto; Nkisi Ndanda Lunda; Nkisi Kaiangu; Kariepembe, Pungu Wanga; Kobayende; Pungu Kasimba; Nkita Kiamasa; Nkita Kuna; Lukankazi, Luganbe, Nzambi Bilongo; Mutalambô, Katalombô, Gunza, Nkuyo Watariamba;

Os cargos e divisão do poder espiritual são:
Mam’etu ria Mukixi - Sacerdotisa chefe (Angola)
Nengua ia Nkisi - Sacerdotisa chefe (Congo)
Tat’etu ria Mukixi - Sacerdote chefe (Angola)
Dise ia Nkisi - Sacerdote chefe (Congo)
Tata Kivonda - Pai sacrificador de animais (Congo)
Kambodu Pokó - Sacrificador de animais (Angola)
Muxikiangoma - Tocador de atabaque
Njimbidi - Cantador (Angola)
Ntodi - Cantador (Congo)


FONTE: http://ocandomble.wordpress.com/2008/06/08/nacoes-do-candomble-2/

domingo, 9 de novembro de 2008

E depois da morte? Existem muitas respostas para isso, que variam principalmente de acordo com as religiões

Espiritismo é uma religião que veio da europa e foi criada por um homem chamado Allan Kardec. Para os espíritas, quando a pessoa morre, pode virar um espírito de luz, que faz o bem, ou das trevas, que faz o mal. Essa alma pode tanto reencarnar em outro corpo, quanto continuar entre os vivos.

Candomblé

A religião criada por negros no Brasil acredita que, depois da morte, a alma não vai para longe aguardar julgamento. Ela continua próxima da família, atrapalhando ou ajudando quem ficou. Quando alguém morre, faz-se uma trouxa com os objetos que o morto usava e as pessoas se desfazem deles em um ritual.

Muçulmanos

No islamismo, religião que tem muitos seguidores no oriente médio, acredita-se que todo mundo depois da morte será julgado pelo que fez na vida e pode ir para o céu ou para o inferno. As pessoas que morreram são banhadas, levadas até a cova em um caixão e enterradas enroladas apenas em um pano branco de algodão.

Católicos

Nessa religião, a vida é uma só. Assim como no islamismo, depois da morte, a alma aguarda o julgamento pelas coisas boas e más que fez e pode ir para o céu ou para o inferno. Em Portugal, são comuns as ′carpideiras′, mulheres contratadas para chorar pelo morto. No interior do Brasil também existe esse costume.

Indígenas

Varia de comunidade para comunidade. Para os Kaingang, índios do Brasil, os mortos transformam-se em um mosquito ou em uma formiga preta, que incomoda. Por isso, devem ser afastados em um ritual complexo, que envolve música e dança. É um processo com várias etapas, até que quem se foi se distancie de vez.

Hindus e budistas

Eles estão principalmente na Ásia. Na Índia, quando alguém morre, é queimado ao ar livre à beira do Rio Ganges, na frente da família, para que todos se lembrem que o corpo é passageiro. Para budistas do Tibete, a vida é algo que passa rápido e as pessoas podem morrer e reencarnar (voltar em uma outra vida).

Judeus

Para os judeus, as pessoas mortas devem retornar o mais rápido possível. Por isso, o caixão é feito com material barato e tem aberturas no fundo. É proibido ver o corpo e enterrar objetos preciosos. Essa é a forma da religião lembrar que todos são iguais na morte. A família fica de luto por 30 dias.

FONTE: JORNAL A TARDE

Pai de Santo acusado de matar esposa é preso

O pedido de prisão preventiva do pai-de-santo Marco Antônio Martins Xavier, 35, foi aceito pelo juiz Cláudio Pantoja, sob acusação de homicídio. Ele está detido desde sábado passado acusado de ter matado a esposa Sara Ranielle Alves Brito, 18 anos e grávida de quatro meses.

Denúncias da comunidade levaram a Polícia Civil de Juazeiro à prisão de Marco Antônio, que enterrou o corpo da esposa sem registro de óbito e sem que a família dela soubesse de sua morte. Com ordem judicial, o corpo foi exumado e o DPT colheu material para exames em Salvador com prazo de dez dias até a conclusão que pode atestar a causa da morte de Sara e a paternidade do filho.

Marco Antônio, dono de terreiro de candomblé, negou a autoria da morte de Sara. Ele, que tem passagem pela polícia por porte ilegal de arma de fogo e tráfico de drogas, foi transferido para o presídio de Juazeiro onde aguardará decisão da Justiça. A polícia prossegue as investigações para descobrir os motivos da morte de Sara que foi novamente enterrada domingo passado, desta vez pela família.


FONTE: Jornal A TARDE.

"O candomblé virou moeda forte no jogo político-eleitoral"



FOTO: Marco Aurélio Martins | Folha Imagem

João José Reis | Mostra como um ex-escravo se fez sacerdote e conseguiu ocupar um lugar na sociedade baiana do século XIX



Há três décadas, João José Reis, 56 anos, aguça suas lentes de pesquisador para encontrar, na frieza dos arquivos, relatos de quem se armou de força e engenho para atravessar a escravidão, seja por meio da revolta, da alforria ou de valores e práticas sócio-culturais. Em Domingos Sodré, um sacerdote baiano, que acaba de sair pela Companhia das Letras, o historiador demonstra mais uma vez sua habilidade para cativar tanto acadêmicos quanto leitores, já revelada em Rebelião escrava no Brasil A história do levante dos malês (1986) e A morte é uma festa (1991), entre outras obras. Ele alia rigor de pesquisa, agudeza da interpretação e fôlego narrativo para contar como um ex-escravo se firma na sociedade baiana do século XIX. A biografia de Sodré serve de fio condutor para traçar o painel de uma época e, particularmente, reconstituir parte dos primeiros anos do candomblé. Nascido e criado na Ribeira, em Salvador, Reis diz que se tornou historiador "graças a uma sucessão de encontros e escolhas felizes". A inspiração para estudar história veio de um professor de pré-vestibular, Alberto Goulart Paes Filho, que, por sua vez, o apresentou a Katia de Queirós Mattoso, "primeira mestra em transformar pesquisa em texto". Com sua ajuda, conseguiu uma bolsa para estudar história na Ucsal, curso que realizou em paralelo ao de ciências sociais na Ufba. Pela frente, encontrou outros mestres, como Johannes Augel e Stuart Schwartz - com auxílio do último, defendeu o doutorado na Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos. Reis é hoje professor do Departamento de História da Ufba e, entre outras atividades, integra a linha de pesquisa Escravidão e invenção da liberdade, que há mais de uma década reúne regularmente pesquisadores da casa e de diversas outras instituições. Desse grupo, já saíram dezenas de dissertações de mestrado, teses de doutorado, livros, artigos e a produção da revista AfroÁsia, do Centro de Estudos Afro-Orientais Ceao. Leia abaixo os principais trechos da entrevista de Reis concedida por e-mail à jornalista Josélia Aguiar, para o Cultural.

A TARDENo prefácio, o senhor conta um pouco como ′descobriu′ Domingos Sodré ao pesquisar em arquivos. Em que instante se deu conta de que ele seria o condutor dessa parte da história social do candomblé?

João José Reis | Acontece comigo. Meus livros sobre a Revolta dos Malês e a Revolta da Cemiterada nasceram de assuntos maiores. Domingos era para ser personagem de um artigo, que escrevi e publiquei, mas comecei a encontrar novas fontes que me permitiram ampliar sua biografia e a fazer conexões com biografias de outros personagens. E o artigo evoluiu para o livro. A história do candomblé não é assunto novo pra mim. Desde 1988, publico artigos sobre o tema. Estou para retomar, em parceria com Jocélio Telles dos Santos, meu colega na Ufba, o projeto de uma história social do candomblé ao longo do século XIX, para a qual já escrevemos alguns capítulos.

AT | De ex-escravo, Domingos Sodré se torna feiticeiro e figura de certa influência. O que sua trajetória de vida nos revela dessa sociedade?

JJR Revela que não era uma sociedade absolutamente fechada à mobilidade social, o que não é bem uma novidade para os iniciados. Mas era uma sociedade escravista em que a maioria dos africanos desembarcados como escravos morria como escravos. E para aqueles que conseguiam alforria, a mobilidade não era ilimitada. Havia barreiras raciais e étnicas intransponíveis, e eu as discuto no livro. O africano liberto, por exemplo, não podia participar em nenhum nível do jogo político oficial, não podia votar nem ser eleito, mesmo se fosse rico, como alguns poucos eram. Havia, inclusive, barreiras legais contra a ascensão econômica do africano. No livro, eu mostro, através da trajetória pessoal de Domingos e outros libertos, como os africanos negociaram a superação de algumas dessas barreiras, formando alianças sociais muitas vezes com a ajuda de suas habilidades rituais.



AT | Quais foram as maiores dificuldades para recontar a história de Domingos Sodré? Em vários trechos, o senhor ′imagina′ aquilo que não poderia ser respondido pela inexistência de documentação. De certo modo, confirma o que nos diz Carlo Ginzburg, para quem é possível fazer história com imaginação - e não, obviamente, com invenção?

JJR É isso mesmo. A dificuldade é que a gente não encontra dados para tudo na vida do personagem. A imaginação do historiador entra, não para substituir o dado, mas para propor possibilidades. A imaginação é também mobilizada para interpretar os dados que temos. Num e noutro caso, ajuda o conhecimento acumulado sobre o tema, a época, o lugar, enfim, sobre o contexto histórico objeto do exercício imaginativo.



AT | Uma obra como esta exige domínio de certas técnicas narrativas. Como nasce o escritor dentro do historiador?

JJR Em primeiro lugar, eu não escrevo apenas para especialistas, nem neste nem em livros anteriores. Os aspectos puramente conceituais raramente aparecem em meu trabalho como discussão teórica pura, o que guardo para o debate acadêmico com colegas e alunos. Não quer dizer que, quando escrevo, evito o debate de idéias, o bate-bola com os autores da área e coisas do gênero. Este livro não é apenas descritivo, é interpretativo, conceitual, mas os conceitos fazem parte da própria narrativa. Deixo que o leitor os descubra se quiser, se não lhe bastar desfrutar de uma boa história. O gênero biográfico, por outro lado, ajuda a engajar o leitor porque se aproxima do romance, o que é mais difícil ao se escrever história econômica da escravidão, por exemplo, que exige gráficos e tabelas. A prosa ficcional é feita de personagens com nome, endereço, embates, atitudes, decisões, desafios, perdas e ganhos, amores e dissabores. Domingos Sodré tem tudo isso, e ainda por cima ele existiu.



AT | Por que, na Bahia, o candomblé alcançou maior prestígio que nas demais regiões do País? Foi apenas por uma questão de maior contingente demográfico negro?

JJR O prestígio do candomblé, no sentido de aceitação social e proteção legal, é fenômeno relativamente recente. Há 30 anos, os terreiros tinham que se registrar na Delegacia de Jogos e Costumes. A partir de então, o candomblé virou moeda forte no jogo político-eleitoral, na economia regional (o turismo), na representação identitária (os movimentos negros) - e seu prestígio vem aumentando. Mas foi também ao longo desse período que a religião viu crescer um adversário poderoso nas igrejas evangélicas. Incidentes de intolerância religiosa, de violência verbal e física contra o povo-de-santo são veiculados toda hora na imprensa. Mesmo os poderes políticos ainda não se acostumaram com a idéia de que candomblé é religião com o mesmo estatuto das demais. A Prefeitura há alguns meses demoliu um templo de candomblé e vem assediando o venerável terreiro da Casa Branca para pagar IPTU, quando templo religioso, pelo que sei, é isento deste imposto. Então não diria que a batalha da aceitação e, portanto, o prestígio do candomblé na Bahia sejam ponto pacífico, ainda.



AT | Quais foram os caminhos encontrados pelos negros para a ′invenção da liberdade′ - título, aliás, de um livro organizado pelo senhor em 1988? Algum predominou? Algum foi mais bem-
-sucedido?

JJR A invenção da liberdade começava no interior da escravidão mesma, na conquista de espaços às vezes muito pequenos de respiração, até coisas maiores como manutenção da família unida, a celebração de crenças ancestrais, a liberdade dos batuques e a conquista da alforria. A invenção da liberdade estava também em atitudes mais abertamente rebeldes, a fuga, a formação de quilombos, as revoltas, o protesto abolicionista. A invenção da liberdade se projeta para além da abolição, para as estratégias através das quais indivíduos e coletividades reconstruíram suas vidas para enfrentar novos obstáculos à sua plena cidadania. E como o passado insiste em se renovar, a invenção da liberdade continua nos dias de hoje na mobilização por ações afirmativas, na defesa das cotas para ingresso nas universidades, na disputa político-eleitoral e na negociação cotidiana com patrões, patroas, policiais, fiscais, professores e outros poderes disseminados pela sociedade e o Estado.



AT | Este tema, o da ′invenção da liberdade′, é ainda pouco explorado por historiadores?

JJR Cada vez mais e a partir de diferentes ângulos, conforme acabo de indicar. A resistência e a negociação se tornaram paradigmas fundamentais dos estudos sobre a escravidão e o pós-abolição. Há gente na área se esforçando para descartar a resistência, o que me parece um movimento tipicamente conservador. Alguns falam em negociação, os mais ortodoxos só vêem acomodação. Há tempos escrevo sobre negociação, mas propondo que é a possibilidade do conflito que leva à negociação. É isso que convence o senhor a negociar. Ou você acha que ele negociava porque era bonzinho? A vida é mais complexa do que isto ′ou′ aquilo. É isto, aquilo e algo mais. Domingos Sodré, por exemplo, era contratado por escravos para fazer feitiço contra senhores, mas era ele próprio senhor de escravos.



AT | Há cerca de duas décadas cresceu a quantidade de pesquisas e livros publicados a respeito da escravidão. Recentemente, o mercado editorial colocou à disposição dos leitores muitos livros sobre a África e a cultura afro-
-brasileira, temas que se tornaram obrigatórios nos currículos. Onde a pesquisa mais avançou?
O que já se conseguiu en-
tender melhor ? Há ainda muitas lacunas?

JJR A maior lacuna está em estudos feitos por brasileiros sobre e na África, a partir de pesquisa original. Os livros publicados são, na sua maioria, didáticos e paradidáticos, escritos a partir de fontes secundárias para atender ao mercado criado pela lei que obriga o ensino da história africana nas escolas. Nada contra isso, mas para preencher a lacuna de obras mais aprofundadas, se poderiam criar linhas especiais de financiamento para formar pesquisadores africanistas. E enquanto os resultados dessas pesquisas não aparecem, se poderiam publicar traduções, o que não é feito por não existir mercado consumidor que justifique o investimento. Que o governo então financie os custos de tradução, e receba em troca das editoras mil, dois mil exemplares para serem distribuídos por bibliotecas de universidades, escolas, institutos culturais e de pesquisa. Já a pesquisa sobre escravidão continua em ascensão no Brasil: história econômica, social, cultural, demográfica, estudos sobre tráfico, alforria, família, biografia, resistência, escravidão urbana, rural, abolicionismo. E a Bahia está bem representada no conjunto do Brasil. Já se diz que temos uma ′escola baiana′ de estudos da escravidão. Faltam-nos mais pesquisas sobre
o período colonial baiano, sobre
o interior além do Recôncavo, sobre demografia escrava e economia escravista, sobre o pós-abolição, entre outros temas. Algumas dessas áreas já vêm apresentando resultados em dissertações, teses, artigos e livros, e sei de outras pesquisas em andamento. Mas a maioria dos pesquisadores permanece escrava do século XIX, do Recôncavo e de Salvador. Eu, por exemplo.



AT | É possível já pensar numa obra que interprete a sociedade baiana do século XX com a abrangência daquela feita por Kátia de Queirós Mattoso em relação ao século XIX baiano?

JJR É possível, sim, mas talvez seja melhor idéia pensar em uma obra coletiva, porque o trabalho não será pequeno, se pretender cobrir todo o século XX. As fontes republicanas não estão tão bem organizadas como as do século XIX
e são mais abundantes, pois além dos tradicionais arquivos do Estado e Municipal, tem os arquivos institucionais, militares, policiais, empresariais, particulares, arquivos orais, a literatura, a música,
a iconografia, a imprensa escrita,
o rádio, a TV e agora a internet. Para completar, uma bibliografia republicana crescente, e não apenas
na área específica de história,
que inclui livros, artigos, dissertações e teses. Não sei por que tenho a sensação de ter esquecido alguma coisa...



AT | Em sua vida de historiador, o senhor tem notado aumento ou redução de interesse por história por parte do público comum?



JJR Tenho. No meu tempo de universidade, o quente era ler economistas e sociólogos, Celso Furtado, Antônio Barros, Fernando Henrique, Octávio Ianni etc. A vez agora é da história. Já tivemos verdadeiros best sellers, infelizmen-
te nenhum deles escrito por mim. O interesse vem dos últimos 20 anos, e resulta, em grande medida, da adoção pelos historiadores de uma linguagem menos hermética e de temas mais ao gosto do leitor não-acadêmico. Mas quem melhor aproveita essa fatia do mercado editorial são os jornalistas,
às vezes em obras excelentes, como a série sobre a ditadura, de Elio Gaspari.



AT | O senhor já tem outro projeto em vista? Qual o próximo personagem, ou aspecto da vida baiana, que lhe interessa agora
estudar?



JJR Tenho muitos projetos em andamento, sobre temas variados: fuga de escravos, história social da festa, a greve africana de 1857, continuo interessado nas revoltas escravas, já mencionei o projeto sobre candomblé. Cada tema será um livro algum dia, se eu tiver vida longa. No momento, estou a escrever com Flávio Gomes (UFRJ) e Marcus Carvalho (UFPE) a história de um personagem tão interessante como Domingos, e que talvez tivesse cruzado com ele nas ruas da Bahia. Era nagô muçulmano, prisioneiro de guerra em Oyo, na Nigéria, vendido a traficantes baianos em Lagos, provavelmente, em 1821-22. Na Bahia, foi escravo de um boticário que o treinou como cozinheiro; seguiu com seu senhor-moço para o Rio Grande do Sul, em 1831, onde foi vendido ao chefe de polícia, de quem comprou sua alforria nas vésperas da Farroupilha, em 1835; daí seguiu para o Rio de Janeiro, onde iniciou carreira de cozinheiro a bordo de navios negreiros, um dos quais foi apresado, em 1841, pelos britânicos, por tentativa de tráfico, e levado a julgamento em Serra Leoa. Lá, o nosso personagem freqüentou escolas corânicas durante alguns meses; retornou ao Brasil, depois visitou novamente Serra Leoa para estudos mais prolongados de língua árabe; voltou mais uma vez ao Brasil para se estabelecer no Recife como alufá, adivinho e curandeiro. Em 1853, correram boatos de uma revolta escrava. Este homem foi preso e contou sua história. Seu nome cristão era Rufino José Maria, seu nome muçulmano Abucaré, talvez o que o escrivão de polícia entendeu de Abdu Karin.

FONTE: Jornal A TARDE.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Batuque digital nos terreiros do Eng. Velho da Federação

Terreiros do Engenho Velho da Federação contarão, a partir de agosto, com três infocentros para jovens carentes do bairro, graças a uma parceria firmada com universidades, governo e fundações culturais. O Programa Roda Baiana, que teve mais uma etapa inaugurada ontem, promoverá aulas de informática para estudantes do Engenho Velho, dando continuidade a uma iniciativa - em atividade - que prepara alunos negros para a inserção no ensino superior.

"Esta é a segunda etapa do Roda Baiana, a próxima será a de capacitação profissional para o mercado de trabalho", explicou Karine Limeira, uma das coordenadoras do projeto. Os terreiros do Cobre, Tanuri Junçara e Bogum, das nações Ketu, Angola e Jeje, respectivamente, ganharam seis computadores, cada um, e deverão contar com monitores contratados durante as aulas, em três turnos diários. Os centros terão conexão rápida, com acesso à internet.

Arraigada nas tradições do candomblé, mãe Val, ialorixá do Terreiro do Cobre, vê a chegada da tecnologia digital sem muito estardalhaço. Ela cedeu uma de suas salas para a instalação dos equipamentos, que não deverão comprometer as atividades religiosas da casa. "Será mais uma experiência, dentre tantas aqui no bairro, além de nos possibilitar trabalhar com outros terreiros, nos fortalecer", diz.

Numa comunidade que reúne anualmente caminhadas contra a intolerância religiosa, como gosta de frisar Karine, a união dos terreiros é uma forma de autodefesa. Mães-de-santo e fiéis do candomblé, caracterizados pela cor branca da sexta-feira, se reuniram ontem em torno dos rituais típicos, desta vez por uma causa nobre. "Num bairro como o nosso, onde o jovem é exposto à violência, precisamos mostrar alternativas para ele", disse mãe Val.

não é lan house - Bem-humorada, a makota Valdina de Oliveira Pinto, considerada liderança religiosa do Engenho Velho, preferiu dar logo seu recado. "Isso aqui não vai ser lan house", decretou, dedo em riste e autoridade de matriarca. Para ela, a importância de se "trabalhar para o mercado de trabalho, não somente tirando o jovem da rua e da marginalidade", sobrepõe o uso do computador para a diversão despropositada. Ou seja, nada de jogos de luta e tempo perdido em páginas de relacionamento, como o Orkut.

Responsável pela doação dos computadores, o Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) pretende trabalhar com software livre, mas o coordenador de inclusão digital da Bahia, Jorge Vasconcelos, admite encontrar alguma resistência, por se tratar de uma configuração diferente da habitualmente implantada nas empresas. "Nosso objetivo é doar outras máquinas consideradas ociosas, beneficiar outros projetos", disse.

"A orientação atual é que empresas públicas doem estas máquinas a entidades filantrópicas ou instituições que tenham um trabalho social importante", esclareceu o coordenador de inclusão digital.

FONTE: Jornal A TARDE

Cristo, Axé e Maomé

No quarto século da nossa era, Agostinho de Hipona escreveu mais ou menos assim: "Ser humilde com quem é arrogante, firme com quem é pusilânime, doce com quem é amargo, decidido com os indecisos, manso com os irados, sereno com os agitados, equilibrado com os angustiados e, ai de mim, amar a todos". Agostinho continua sendo um baluarte da fraternidade. Guimarães Rosa disse que há o mundo do rio e o mundo da ponte. Construo pontes. Não de madeira, concreto ou aço, mas de sonhos. Material eterno e mais nobre.

Na primeira sexta-feira de julho, na missa da Igreja de São Lázaro entraram pessoas ligadas ao candomblé. Duas delas jovens, com roupas novas imaculadamente brancas e limpíssimas. Chegaram silenciosas, pacíficas e humildes e se colocaram de frente para o altar, em posição de prece maometana. Cristo, Axé e Maomé. O clima estava bom e ficou melhor. O silêncio ficou rico, lembrando um verso da minha juventude: "O silêncio infinito do grito de Deus". Passados alguns minutos, saíram tão ungidamente quanto tinham entrado.

O Dalai Lama disse que religião é para unir pessoas, colocá-las em comunhão; caso contrário, não merece este nome. Guerras ditas religiosas, cristãs, islâmicas, judaicas, tribais ou quaisquer outras são expressões do oposto. A religião deve ocupar-se com o Bem, e não com "os bens", como fazem tantas imposturas por aí.

Mudando de assunto no gancho do axé, que significa algo como "graça", o contrário de "desgraça", se não me engano em iorubá, a dívida que a cultura moderna da Bahia tem para com a chamada "axé music" é inestimável. Incluo no pacote a linha afro e a linha, digamos, branca, que de branco mesmo tem pouco.

Entre os muitos benefícios, cito o desenvolvimento da percussão em uma infinidade de levadas diferentes, ricas e criativas, que têm impressionado o mundo, a criação de um imenso campo de trabalho internacional para jovens que, de outro modo, dificilmente teriam uma ocupação decente, a elevação do nível técnico e artístico de uma grande quantidade de músicos (guitarristas, arranjadores, baixistas, tecladistas, saxofonistas, trompetistas, trombonistas e outros), habilitando-os profissionalmente e possibilitando-lhes a aquisição de instrumentos e equipamentos periféricos "de ponta", o que acaba beneficiando o meio musical como um todo.

Percussionistas e outros músicos do chamado "axé" têm atuado como multiplicadores em muitas escolas, centros comunitários, grupos paralelos, estúdios de ensaio e gravação, etc. De outro lado, o núcleo de orquestras juvenis e infantis do Teatro Castro Alves, também com um trabalho brilhante na formação de músicos, via outra linguagem não menos importante, embora mais impopular ainda. Tudo isso com muitas ligações diretas e indiretas com a grande mãe, a Escola de Música da Universidade Federal da Bahia.

FONTE: Jornal A TARDE

Dama do candomblé

Em 18 de outubro de 1998, a comunidade do Ilê Iyá Omin Axé Iyamassê, e por extensão todo o povo-de-santo da Bahia e do Brasil, perdia a iyalorixá Cleuza Millet, primogênita de mãe Menininha do Gantois (1894-1986), que a substituiu no trono sacerdotal daquela casa de 1989 até o já referido ano de sua morte. Iyá Cleuza pertenceu à grande dinastia de mulheres negras que compuseram um dos mais importantes legados religiosos de herança africana no Brasil: o Axé Gantois.

Desde criança, ela demonstrou uma forte personalidade e se construiu como mulher fora de muitos padrões seguidos e impostos a pessoas que tinham a sua condição étnica, sexual e social. Impressionava a todos com a força de suas decisões, determinação e, de certa forma, com as transgressões que cometeu ao longo de sua vida, em nome de muitos avanços que gerou para si e para sua família consangüínea e espiritual. Ela nasceu na Cidade da Bahia, em 1923, e já em finais de 1938, aos 15 anos, chamou a atenção da pesquisadora estadunidense Ruth Landes, que viu na jovem uma outra possibilidade de exercício de feminilidade e de independência em relação ao forte domínio exercido pelos homens desta nossa terra naquelas épocas.

A sua trajetória de vida a fez morar por 18 anos no Rio de Janeiro, onde teve seus três filhos, só retornando a viver no Gantois no começo dos anos 1960, quando começou ao lado da mãe Menininha, então já prestigiosa iyalorixá entre nós, a cuidar liturgicamente do complexo universo religioso daquele candomblé. Além de ebomy e braço direito da mãe, obrigou-se a estudar fazendo o curso técnico de obstetriz, na Faculdade de Medicina da Bahia. Trabalhou também como bancária, e foi, de fato, como havia previsto Ruth Landes em seu livro A cidade das mulheres, um exemplo feminino de independência e rigor litúrgico que deu continuidade aos ensinamentos ancestrais de D. Maria Júlia da Conceição Nazareth, sua tataravó e fundadora do Terreiro do Gantois.

Mãe Cleuza corporificou a imagem das mulheres altivas e determinadas, circunscritas na esfera das religiões afro-brasileiras, inteligentes e políticas, estudadas, que levaram para o sacerdócio suas experiências como cidadãs, impondo-se como mulheres negras do candomblé, dialógicas e proponentes de outras práticas que negassem o forte racismo existente em Salvador e em todo o Brasil. Ela se representa assim ao lado da grande Stella de Oxóssi, e de sua própria irmã caçula, mãe Carmem de Oxaguian, sucessora de Cleuza e atual iyalorixá do Gantois.

Neste mês de julho, precisamente no último domingo (amanhã), o Gantois festeja a orixá Nanã, senhora dos mistérios da vida e da morte, dos lamaçais, orixá que regia a cabeça de Cleuza, e ela como uma das damas soberanas daquela casa, na figura da sua orixá, também é relembrada e saudada por sua comunidade religiosa. Gente-de-santo não morre, sublima-se.

FONTE: Jornal A TARDE

Obá de Xangô nos braços de Olorun

A notícia relâmpago - morte de Caymmi - veio no tapete mágico voador. Perdida na contemplação do pé de damas-da-noite, transportei-me ao velho Opô Afonjá de Mãe Senhora dos grandes e inesquecíveis obás, os ministros de Xangô, já nos braços de Deus-Olorun: Jorge Amado, Miguel Santana, Camafeu de Oxóssi, Dmeval Chaves, Carybé... Agora Dorival Caymmi, o menestrel vanguardeiro.

Mãe Aninha, a fundadora do Axé, auxiliada por Martiniano Eliseu do Bonfim, criara, nos 1930, o corpo de obás: os ministros de Xangô, responsáveis pelos caminhos de seu candomblé de São Gonçalo do Retiro. Quase duas décadas mais tarde, sua filha espiritual Mãe Senhora de Oxum introduziu os "otum" e "ossi" de cada obá de Xangô. Otum significa direita; ossi,
esquerda, o que é freqüente
na complexa hierarquia dos
terreiros. São os assessores imediatos.

São 12 os obás-ministros de Xangô, o orixá da justiça e poder em exercício, o mais popular do panteão das divindades nagôs: obá aré, obá abiodum, obá cacanfô, obá telá, obá odofim, obá xorum, obá aressá, obá onikoiy, obá olubom, obá erim, obá onãxocum, obá arolu. Os primeiros seis são os chamados "obás da direita": com direito a voz e voto e, também, de tocar o xeré, sino sagrado de Xangô. Os demais são os "obás da esquerda", apenas com direito de voz; somente pegam os xerés na ausência dos primeiros. Não confundam os obás da direita e da esquerda com os "otum" e "ossi" de cada obá.

Dorival Caymmi era obá onikoiy, confirmado por Mãe Senhora há mais de quatro décadas. O cantor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil é otum-obá onikoiy: com a morte de Caymmi, ascende ao posto de obá onikoiy. Os obás são escolhidos diretamente por Xangô: os responsáveis pela manutenção da tradição e guardiães dos bons costumes.

Conheci Caymmi no Axé, em meados dos 1980. O venerando obá ficou mais de 15 dias em São Gonçalo, passando a limpo sua vida espiritual. Era comum vê-lo tocando violão perto do velho pé de iroco, vizinho à casa de Xangô. Bati papos gostosos com o impressionante artista que, no terreiro, comportava-se como outro qualquer: especial por ser filho de Xangô e obá de Xangô, não mais do que semente que deu certo perto de cascata de águas límpidas.

Pela manhã, conversando com Mãe Carmem, a ialorixá do Gantois, por telefone, com saudade nos lembramos da famosa canção Oração de Mãe Meninha, cantada pelas grandes vozes da MPB. Mãe Carmem me relembrou que todos os filhos de Caymmi são iniciados no Gantois, no tempo de sua falecida mãe, daí os laços de obá onikoiy com a impressionante comunidade da Federação.

O orun está em festa. São muitos a receberem o menestrel de Xangô: Carybé, Jorge Amado, Camafeu, Mãe Senhora, Mãe Menininha, Carmen Miranda e tantos outros também sementes de primeira ao lado de um manancial de água cristalina. Olorun kossi purê obá onikoiy.

Cléo Martins | Agbeni Xangô do Axé Opô Afonjá

FONTE: Jornal A TARDE

Fiéis unem São Roque e Obaluaê


Fotos Eduardo Martins | Ag. A Tarde

Nunca o sincretismo religioso teve tanta força na festa em homenagem a São Roque e Obaluaê. Pela primeira vez, os rituais afros dividiram o altar com o culto católico durante missa celebrada em comemoração ao dia do santo, ontem, no Santuário de São Lázaro, no bairro da Federação. Toques de atabaques, agogôs e músicas do candomblé deram o tom da festa, na segunda missa do dia, realizada às 9h.

Nos anos anteriores, os adeptos do culto de matriz africana praticavam os rituais do lado de fora da igreja. O pároco Rosivaldo Mota diz que resolveu quebrar a tradição católica que restringia as missas de culto afro às primeiras segundas-feiras de cada mês, mas proibia a celebração no dia dedicado a São Roque, 16 de agosto.

"Fizemos uma pesquisa e constatamos que 99% dos devotos eram a favor da mudança. Estamos na Bahia e é importante aderir às duas culturas", afirma. O pároco diz que pretende seguir a experiência na festa em homenagem a São Lázaro, em janeiro.

Festa - Uma multidão de devotos vestida de branco, em sua maioria, se espremia dentro e fora da igreja que permaneceu lotada durante todo o dia. Muitos se emocionaram com a liturgia e também se embalaram ao ritmo de ijexá. "Está uma coisa linda. A missa de São Roque tem que ter axé. Acho que demoraram muito para unirem os dois cultos", comentou a servente Maria de Fátima Santos, 50 anos, que freqüenta o local há mais de 20 anos.

Com lágrimas nos olhos, a filha-de-santo Maria Augusta Santana, 31, não escondia a emoção. "Essa é uma igreja muito importante para o povo do candomblé. Não era justo que a gente ficasse do lado de fora no dia dele, já que todos somos devotos", disse.

Homenagem - As comemorações em homenagem a São Roque foram iniciadas às 5h, com alvorada e queima de fogos. Ao todo, foram realizadas quatro missas: às 7, 9, 11 e às 15 horas a celebração solene. Às 16 horas uma multidão seguiu em procissão pelas ruas do bairro.

Durante todo o dia, fiéis fizeram fila do lado de fora do santuário de São Lázaro na Federação para tomar o tradicional banho de pipoca. Gente que vinha para fazer pedidos, agradecer uma graça ou simplesmente louvar o santo caridoso que é protetor dos pobres, viúvas e dos órfãos.

O ritual é seguido pelo bancário André Fernandes, 36, há 29 anos. Ele conta que virou devoto de São Lázaro depois que ficou curado das crises de convulsões que nenhum médico soube diagnosticar o motivo. "Fui em vários médicos e nenhum deles resolveu o meu problema. Um medico espírita indicou a minha mãe que me trouxesse aqui para tomar um banho de pipoca e eu fiquei curado", lembra.

Já a professora Amália Conceição Barbosa, 40, diz que toma banho de pipoca apenas para afastar o mau olhado. "O banho traz energia", acredita.

Um dos tabuleiros mais disputados era o da mãe-de-santo, Janete Souza, 54 anos, que faz o ritual há mais de 20 anos. Para atender os devotos ela preparou mais de 30 quilos de milho de pipoca. Uma das mais antigas no local, a mãe-de-santo conta que teve seu pedido atendido por São Lázaro, mas que hoje também é devota de São Roque. "Minha filha ficou curada de um problema na perna depois que eu dei um banho de pipoca na porta desta igreja. A partir daí, nunca mais parei de dar banho".

Origem - A Festa de São Roque é de origem portuguesa, mas possui forte influência dos adeptos do candomblé, que reverenciam Obaluaê, divindade ligada à cura das doenças epidêmicas. Roque nasceu na cidade de Montpellier, no sudeste da França. Era filho de pais nobres. Em 1315, aos 20 anos de idade, os pais de Roque morreram, mas ele decide seguir Jesus Cristo, renegando os bens materiais e distribuindo-os entre os pobres.

Partiu de Montpellier em peregrinação a Roma e, durante o caminho, encontrou cidades infectadas pela peste negra e, como tinha formação médica, se ofereceu como enfermeiro. Contraiu a doença e curou-se milagrosamente. Morreu em 16 de agosto de 1327, aos 32 anos.

FONTE: Jornal A TARDE

Obra de Mestre Didi aquece debate artístico


FOTO ADQUIRIDA EM SITE DE BUSCA GOOGLE

A obra de Mestre Didi conseguiu reunir, em um seminário, realizado na capital baiana, especialistas brasileiros e estrangeiros das mais variadas áreas do conhecimento. Ontem, a dimensão simbólica da criatividade e da linguagem foi o tema dos debates que têm como ponto de partida o uso dos recursos criativos pelo sacerdote dos cultos africanos e um dos mais consagrados artistas brasileiros. Intitulado "Criatividade, âmago das diversidades culturaisa estética do sagrado", o seminário prossegue até hoje, no Hotel Pestana.

A atividade, organizada pela Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil ( Secneb), continua a celebração dos 90 anos de Mestre Didi, comemorados em dezembro do ano passado. Um dos debates realizados na manhã de ontem, acompanhado atentamente pelo homenageado, reuniu o escritor e diretor da Fundação Biblioteca Nacional, Muniz Sodré; o articulador junto a ONU e membro da Cátedra Indígena Itinerante, Marcos Terena, dentre outros convidados.

"Este seminário não é para falar sobre qualquer alguém, mas de um respeitado representante do povo nagô na Bahia. Mestre Didi deveria ser reverenciado nacionalmente por ser uma figura tão atuante e dono de uma criatividade que traduz a vivacidade de um povo do ponto de vista litúrgico, artístico, narrativo", disse Muniz Sodré.

Marcos Terena, da etnia indígena terena, originária da região do Mato Grosso do Sul, é também diretor do Memorial dos Povos Indígenas e membro do Comitê Intertribal (ITC). Ele destacou a proximidade entre a visão de mundo africana, que é tema da obra de Mestre Didi, com a guardada pelos povos indígenas.

terra - "Nós entendemos a terra como um lugar do qual somos inquilinos. Não somos donos no sentido de explorá-la, mas sim inquilinos que sabem como cuidá-la. Por isso ela é tão importante para nós, como é para os quilombolas", completa Terena.

Ele destaca que o impacto da colonização opressiva no Brasil começou sobre os povos indígenas e continuou atingindo os africanos trazidos como escravos. "Existem conexões que nos aproxima", acrescentou Terena.

Descóredes Maxilimiliano dos Santos, o Mestre Didi, é filho único de Maria Bibiana do Espírito Santo, a Mãe Senhora, que foi ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, um dos mais conhecidos terreiros de candomblé de Salvador.

Mestre Didi é descendente da tradicional família Asipa, originária de Oyó e Ketu, cidades do império iorubá e que hoje estão em território pertencentes à Nigéria e República do Benim.

Ele é um alto sacerdote do culto aos ancestrais, dono também de títulos como o que recebeu em 1983: Obá Mobá Oni Xangô, dado pelo rei de Ketu. Por conta de suas atribuições sacerdotais, não se pronuncia em público, fora de um recinto religioso.

"Mestre Didi é um sábio e líder espiritual que tem feito da vida dele uma demonstração de como afirmar sua identidade sem nenhuma forma de agressão. A grande idéia sobre ele é a idéia da tolerância", destaca a socióloga e diretora da Secneb, Maria Brandão, moderadora do debate "Criatividade e a Comunicação Intercultural", que ocorre hoje.

FONTE:Jornal A TARDE

STJ condena Universal a indenizar mãe-de-santo


FOTO:Fernando Amorim / Agência A Tarde

Os herdeiros da ialorixá baiana Gildásia dos Santos e Santos, a mãe Gilda, ganharam mais um round da luta travada com a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). O Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou a igreja a indenizar os filhos e o marido da sacerdotisa do candomblé por danos morais.

Segundo profissionais da área de direito, é a primeira vez que o STJ decide sobre uma ação que envolve intolerância religiosa cometida por uma instituição. “O que temos ainda em andamento são processos em que indivíduos isolados cometem o crime. Mas, neste caso, a ação partiu de forma institucionalizada, ou seja, por um órgão pertencente à Iurd, no caso, a Folha Universal”, explica o promotor de justiça Almiro Sena. Ele é o titular da Promotoria de Justiça de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa, criada há 11 anos e de forma pioneira pelo Ministério Público da Bahia.

Pela decisão do STJ, os herdeiros, em conjunto, vão receber pouco mais de R$ 145 mil, cabendo R$ 20.750 para cada um. Segundo um dos advogados dos herdeiros, Maurício Araújo, o valor será corrigido, tendo como parâmetro o ano de 1999, quando aconteceu a ofensa. Desta forma, a indenização ficará em cerca de R$ 400 mil. Ainda cabe recurso de ambas as partes. Neste caso, o julgamento será feito pelo chamado “pleno” do tribunal. A atual sentença foi dada pela Quarta Turma.

O total fixado pelo STJ ficou abaixo da indenização de R$ 1,3 milhão estabelecida na sentença do juiz Clésio Rômulo, da 17ª Vara Cível da Bahia, em 2004. Um ano depois, o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ) fixou um novo valor: R$ 960 mil.

“O valor dado pelo STJ está bem abaixo do que pretendíamos, mas comemoramos a condenação histórica. O STJ reconheceu a intolerância religiosa praticada pela Iurd”, explica Araújo. Segundo o advogado, os herdeiros apresentarão recurso para contestar o valor. “Vamos aguardar a publicação da sentença, que deve ocorrer a partir da próxima terça”, comenta.

Na avaliação de Maurício Araújo, o STJ seguiu uma padronização de valores que costuma adotar. “A meu ver, a indenização poderia ser mais alta por conta da peculiaridade do dano”, avalia Araújo. Em casos de danos morais, a legislação estabelece pisos específicos para evitar situações, como por exemplo, enriquecimento a partir da ação.

A TARDE entrou em contato com a assessoria de comunicação da Iurd, que fica em São Paulo. Foram obedecidas todas as exigências feitas pela assessoria para a obtenção de resposta da igreja – envio de e-mail formal, com detalhamento do assunto. Ao final do prazo, a assessoria informou que a direção da Iurd não deu nenhum tipo de resposta sobre o pedido da reportagem.

LUTA – A origem da ação judicial contra a Iurd foi a publicação, em 1999, de uma foto da mais alta sacerdotisa do terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum, localizado em Itapuã, numa reportagem da Folha Universal intitulada "Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes".

Mãe Gilda morreu de infarto em 21 de janeiro de 2000, um dia após assinar a procuração para a abertura do processo. “Minha mãe tinha a saúde fragilizada e piorou depois do choque de ver sua foto na reportagem”, conta a ialorixá Jaciara Santos, filha biológica e sucessora de mãe Gilda no comando do terreiro. Embora considere baixo o valor da indenização concedida pelo STJ, ela afirma que a decisão tem um forte simbolismo.

“Foram nove anos de luta, mas estou feliz por ver a Iurd condenada”, diz a ialorixá, que neste sábado, 20, participa de uma marcha contra a intolerância religiosa no Rio de Janeiro. Ela também participou de uma ação contra a intolerância religiosa realizada nesta sexta-feira, 19, em Salvador.

JURISPRUDÊNCIA – Para a coordenadora local da Koinonia, Jussara Rêgo, a decisão do STJ abre jurisprudência. “Embora a indenização tenha sido baixa, abriu-se a possibilidade de punição para casos semelhantes”, diz. A Koinonia é uma ONG que assessora comunidades como as dos terreiros.

O advogado Samuel Vida, professor da Ufba e da Ucsal, também elogia a decisão. “O reparo que faço é em relação ao valor da indenização. A política de fixação de valores irrisórios pelos tribunais reduz o efeito pedagógico da punição”, diz Samuel Vida, que é coordenador do Afro-Gabinete de Articulação Institucional e Jurídica (Aganju).

A batalha dos herdeiros de mãe Gilda tornou-se um símbolo da luta pela liberdade de culto em todo o Brasil. O dia da sua morte é a data nacional de combate à intolerância religiosa por meio de um projeto do deputado federal Daniel Almeida (PCdoB), que foi sancionado pelo presidente Lula no ano passado. A ação foi inspirada numa lei vigente em Salvador e que partiu da iniciativa da vereadora Olívia Santana (PCdoB).

FONTE: Cleidiana Ramos, do A TARDE

Alvorada dos ojás

No ano passado, nas comemorações do mês da Consciência Negra, surgiu a idéia de no dia do ato da 3ª Caminhada pela Vida e Liberdade Religiosa, organizada pelo Coletivo de Entidades Negras (CEN), fossem amarrados panos brancos (ojás) nas árvores do Dique dos Orixás, como o prefere chamar o povo de candomblé desta cidade. Sem as condições devidas naquele momento, protelamos o ato, mas não o esquecemos.

Montamos uma comissão que, percebendo os avanços da intolerância religiosa no País, resolveu fazer o ato neste 19 de setembro, dia do lançamento da 4ª Caminhada, e com uma tarefa ainda maior: colocar ojás em 21 bairros de Salvador. Daí foi uma batalha para conseguir três mil metros de tecido, montar as equipes com mais de 40 carros e 200 pessoas e varar a madrugada de quinta-feira com este fim.

Babá Pecê, Makota Valdina, Tata Hemetério, Ebomy Nice, Equede Lindinalva de Paula, Maria Leda e sua equipe das baianas, Tata Eurico, Marlene de Exu, Hamilton Ribeiro, mãe Jaciara, Dois Mundos, Iale, Bigode, Hamilton Borges e candidatos a vereador que são do candomblé, como Tâmara Azevedo, Raimundinho Kewanze, Vera Fonseca, Torres e Euclides, destacaram-se no apoio ao ato. O prefeiturável Hilton Coelho também.

A ação política tem fim específico, que é combater a intolerância religiosa e mostrar que amamos tanto as árvores que carregam as energias sagradas, as energias dos nossos ancestrais e as nossas forças, assim como o vento, a água, o fogo e tudo o que tem de sagrado e denominamos meio ambiente, pois somos de uma religião que tem fundamento na natureza.

A cidade amanheceu mais bonita e com um ar de curiosidade. No Abaeté, na orla, Dique, Garibaldi, Bonfim, Paralela, Centro, Vitória, Suburbana e outros locais. Muitos desejaram saber o significado das árvores amarradas com os ojás. Uns afirmaram que era um ato pela paz, e foi. Outros, contra o extermínio de jovens negros e o assassinato de policiais, e foi. Outros para abrir a mente dos políticos com relação a ações sérias para o povo de candomblé. Foi também.

Propomos ao Estado compreender a nossa história e as nossas raízes. É inaceitável demolir terreiros em Salvador, lacrar terreiros em São Paulo, fazer leis que impedem a nossa liberdade de culto no Rio Grande do Sul e tirar a guarda da criança a fim de evitar transtornos psíquicos, como aconteceu no Rio de Janeiro. Sabemos que a liberdade de crença é um direito constitucional.

O que fizemos foi mais um ato de amor do povo de candomblé ao povo de Salvador, da Bahia e do Brasil. Agora fica a questão: que tal nos amar também? Não custa nada e é bom para todo mundo. O amor é uma das melhores ações para melhorar o mundo. Que os orixás, inquices, voduns e encantados para sempre sejam louvados, e que Jeová, Jesus, Alá, Tupã, Buda, os irmãos de luz, também e para todo o sempre.

FONTE: Jornal A TARDE

Santo ou orixá?

Cosme e Damião já eram crescidos quando cuidavam das pessoas. Eles são cultuados desde o século 4, e suas imagens faziam referência a adultos. As atuais, que mostram duas crianças, vêm das mudanças pelas quais as religiões passaram no Brasil. Aqui já foi proibido ser de qualquer outra religião que não fosse o catolicismo.

Para escaparem da perseguição, os negros escravizados no Brasil associavam os seus deuses aos santos católicos. Oxossi era São Sebastião, Iansã era Santa Bárbara, Ibeji era São Cosme e São Damião. Assim, podiam cuidar de suas divindades fingindo que rezavam para santos da Igreja. Com o tempo, as religiões se misturaram, e uma influenciou a outra. Como Ibeji é um orixá criança, os santos viraram meninos. Em algumas imagens, a terceira criança que aparece é Idoú, irmão mais novo do gêmeos. Para o candomblé, três é um número sagrado. Na África, um dos gêmeos é mulher.


FONTE: Jornal A TARDE

Adeptos do candomblé vão às ruas pedir liberdade de culto

Branco para protestar. Na manhã de ontem, militantes em favor da liberdade religiosa e adeptos dos cultos de matriz africana usaram a cor de Oxalá não apenas nos trajes. Vestiram uma parte da cidade, da Praça da Sé à Lagoa do Abaeté, com os tecidos brancos utilizados nos rituais de candomblé, os ojás (colocados em locais sagrados). O objetivo foi exigir respeito e combater a intolerância religiosa, não apenas na cidade, mas em todo o Brasil. Por volta das 9h, o Coletivo de Entidades Negras (Cenbrasil) começou a Alvorada dos Ojás na Praça Municipal, junto à cajazeira centenária que fica ao lado do Memorial das Baianas e ao monumento da Cruz Caída, de Mário Cravo Júnior.

O grupo realizou um ato litúrgico no local. Baianas dançaram e músicos tocaram instrumentos usados nos rituais. "Viemos fazer um pedido aos nossos ancestrais, de força para resistir e lutar pela liberdade de religião", explicou Marcos Rezende, coordenador do Cenbrasil, conselheiro da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos e ogã do Terreiro Ilê Axé Oxumaré.

Também foi lido manifesto contra a intolerância e pela liberdade de culto, assinado por representantes de mais de mil terreiros de Salvador e outros 40 municípios baianos. O documento relembra o caso de Mãe Gilda. A demolição do Terreiro Oyá Unipó Neto, no bairro do Imbuí, em fevereiro, foi outro caso de agressão ao povo-de-santo citado pelo manifesto.

Marcos Rezende, que fez greve de fome em protesto quando o terreiro foi demolido, disse que este tipo de ataque precisa ser combatido não apenas na época de eleição: "Agora todo mundo fala em respeitar as diferenças entre as religiões, mas, quando a disputa por votos acaba, esquecem das promessas. O mapeamento dos terreiros de candomblé, por exemplo, deveria ser acompanhado da regularização fundiária dos locais, prometida pela prefeitura em regime de urgência. Até hoje o projeto está parado na Câmara de Vereadores", comentou.

O manifesto trata também de assuntos de outros estados. No Rio Grande do Sul, há a discussão de uma lei em defesa dos animais que, segundo o coletivo, inviabilizaria a liturgia dos cultos afro-brasileiros. Em São Paulo, um terreiro com mais de 25 anos foi lacrado pela prefeitura sob a alegação de mudança de zoneamento urbano e de que o barulho dos atabaques incomoda a vizinhança. No Rio de Janeiro, uma mulher adepta de cultos africanos chegou a perder a guarda do filho, porque a presença de imagens religiosas afetaria o desenvolvimento da criança.

A Alvorada dos Ajós também marcou o lançamento da quarta Caminhada Pela Vida e Liberdade Religiosa, que será realizada em 23 de novembro, saindo do Engenho Velho da Federação e indo até o Dique do Tororó.


FONTE:Jornal A TARDE

20/09/2008|

terça-feira, 16 de setembro de 2008

XIRE DE OSUN

O Ilè Alaketù Asé Òsún Iyámí Ipondá na pessoa do Babalorisá Mauro
T'osun
tem a satisfação de convida-lo para os Festejos de Iyámí Osun a
realizar-se
no dia 11 de Outubro, na ocasião será servido um jantar a todos os
convidados as 19hs, com ínicio do Sirè previsto para as 21hs.
Tradicionalmente O Ilè Alaketú Asé Òsún Iyámí Ipondá traz nossa Rainha

Ipondá no Ritual do Adegan ( A entrega dos 16 Ekodidés), na sequencia
de
ricos rituais Iyámí Osun prossegue com a entrega do pote de Obi, a
escolha
dessas pessoas se dá de forma aleatória e sem prévia escolha, Osun na
sua
sabedoria majestosa entrega a quem ela espiritualmente veja a
necessidade
de se ter tal Asé !
Realmente tem sido todos os anos surpreendente o número de pessoas das
mais
diversas partes do Brasil que vem para os Festejos de Osun, no último
ano
vários antropólogos do exterior vieram estudar tal ritualística no Egbé
de
Osun, e sairam maravilhados com tanta originalidade na forma de culto
do
Orisá Osun no Asé do Baba Mauro.
Tendo sido o Babalorisá Mauro Tosun o primeiro a introduzir tal Ritual
no
estado do Rio de Janeiro, e hoje muito se alegra em ver tal Ritual
propagado em quase todo o Brasil, por sua vez no ano de 2003 a então
Iyalorisá Wanda de Osun trouxe o Asé de Òsún Osogbò Nigéria delegando
entao
os direitos do Baba Mauro T'osun realizar tal Ritual em seu Egbé com
direito de entregar a outros Babas e Iyas de Òsún este Asé.
Os intervalos desta rica Festa se dá com maravilhosos aperitivos, doces
e
quitutes da nossa culinária baiana ...

É habitual pessoas de outros Egbés virem e se instalarem no Asé dias
antes
dos Festejos, participando desta forma dos rituais que antecedem a
Osun,
como os Preceitos do Orisá Otin, Erinlé, Logun Edé e Sango !

E pedido a todos do nosso Culto que venham em trajes brancos,
respeitando
tradicionalmente a dona da casa, Òsún !

O Asé Iyámí Ipondá situa-se à Rua Expedicionário Wilson Viana Barbosa,
321
- Bairro Colubandê - Município de São Gonçalo.

Para chegar em nosso Egbé vindo pela Ponte Rio-Niterói siga seEsta
mensagem